CRÔNICA /

Segunda-feira, 06 de Julho de 2020, 06h:30

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Pandemia

Muitos se contagiaram de amor, compaixão, solidariedade e saíram, ajudaram, trabalharam


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Elisangela Ricci

É, chegou. Ninguém esperava. Veio vestida de medo e terror. Contaminou a todos e a todas. Ninguém saiu ileso. Quem não morreu da doença, morreu por causa dela. Muitos se contagiaram de amor, compaixão, solidariedade e saíram, ajudaram, trabalharam. Vestiram quem estava nu, deram água a quem tinha sede, alimentaram quem tinha fome e acolheram quem estava à margem. Mas, houve quem se contaminou de ódio, indiferença, da força do mal e saiu propagando a mentira, a desordem, a farsa, o ataque.

 

A doença se tornou maior ainda encontrando alojamento na falência humana, nos que acreditavam que a morte viria com a fome. Mal sabiam eles que matava mais a fome de cultura, educação, respeito que eles nem percebiam que sentiam. Ansiavam apenas em encher seus bolsos vazios. A escuridão veio e se instalou por um longo tempo. Muitos preferiram ficar nas suas cavernas do que buscar a luz e assim aniquilavam os que tinham necessidade de luz, calavam os que precisavam da verdade. A aflição estava instalada. Os pobres, oprimidos, negando o conhecimento, alimentavam entre eles os seus opressores. O retorno ao obscurantismo foi fatal. A negação ao fato, a negação da doença desoladora, secular, impiedosa, criada pelo próprio homem-abutre, voraz, interesseiro, cruel, com sua gana de destruição da matéria e sua sede de dominar o mundo levaram-no rumo à destruição, à morte de centenas de milhares de inocentes. Em meio a doença instalada, sem cura, o homem inescrupuloso instaurou o caos. Trouxe à tona a dor causada pelo poder da tirania, pelo poder de ver morrer. Seguidores, invocadores de retrocessos históricos eram capazes de se divertirem, passearem, festejarem e esquecerem o próximo que sofria pela negligência e frieza de tantas desgraças. Sim! Tantas desgraças! Infelizmente, nascidas pelas mãos dos homens-abutres-inescrupulosos que nunca ouviram o clamor dos oprimidos, dos esquecidos, dos excluídos, dos marginalizados...dos doentes do próprio homem-abutre. Os dias foram passando, os meses, os anos se esvaindo no tempo. Quem alimentava o que tinha fome, também teve fome. Quem cuidava do que estava doente, também adoeceu. O mundo teve sede, teve fome, ficou nu. Perderam a vergonha, a sensatez, perderam o respeito um pelo outro. E esses detentores do poder...riam, se esbaldavam. Viviam eles entre orgias e demagogias. Acima do bem e do mal. Em suas redomas intocáveis custeadas pelo povo, pelo pobre, pelo trabalhador. O remorso pra eles não existia. Carregavam nos ombros o peso de suas ações maléficas com afinco, altivez e sorriso sarcástico. Agiam como se estivessem purificando o povo, sendo que, na verdade estavam escaldando o povo, pelando o povo aos poucos. O povo era deixado à míngua, numa situação desoladora de tortura. Dia após dia aquela ferida aberta era cutucada no povo. Posta a sangrar. Grilhões, chibatas, tronco, tudo posto camufladamente. Havia quem não via, quem não sentia, quem não acreditava nisso. Pois o rei era bom! Incapaz de tal atrocidade. Notícias contra o tirano eram falsas, rebatidas com mais violência. Tudo e todos que se opunham ao tirano tinham que ser eliminados. O seleto grupo, puro e escolhido deveria sobreviver, os demais e os que não se faziam mais necessários, a morte! Essa era a sentença. O próprio homem-abutre saia às ruas para espalhar contaminação. Alguns o seguiam, demonstrando benevolência, obediência e veneração. Muitos outros o expulsavam, o repeliam e escunjuravam-no. Mas, ainda assim, ele era o tirano escolhido. A maior e pior doença do mundo - um tirano!

A pandemia um dia acabou. Não sei ao certo quando. Se a ciência, tão achincalhada pela escória, conseguiu a vacina. O fato é que a vacina do bem, do respeito, do amor, da esperança, da justiça, da paz, da verdade sempre existiu, mas muitos se negam a tomá-la, ainda hoje. Em pleno século XXI. Eu, hrum...não imaginei que nasceria em meio a ditadura militar e que iria conhecer as privações desse regime dentro da própria casa. Ainda, no mesmo ano em que Raul Seixas lançaria a música - Eu nasci há dez mil anos atrás - perceber uma canção escrita há pouco mais de quarenta anos sendo tão atual.

É triste ver no século XXI, as mesmas pessoas, já com mais idade, mas que presenciaram, viveram toda dor de vinte e um anos de ditadura, negar a história, negar a ciência e fecharem os olhos pra vida. A pandemia nos mostrou as mazelas da humanidade. A crueldade do ser-humano ao extremo. Sinto que também morri. Morri na dor do meu irmão, morri na perda do meu próximo, morri na fome do meu vizinho. Morri, também, vendo a crueldade tão perto de mim. Morri na maldade pujante, antes escondida nas pessoas conhecidas. Morri nos dias de tristeza e aflição. Morri acompanhando o altíssimo número de mortos a cada dia.

Graças ao meu filho eu sobrevivi. No seu cheiro de vida. Sobrevivi na sua tenra idade. Sobrevivi nas suas palavras novas, inventadas para representar o inexplicável. Sobrevivi para ensiná-lo. Sobrevivi na luta por salvá-lo. E porque não podia deixá-lo sozinho nesse mundo tão perverso. Sobrevivi no amor!

Elisangela Ricci

 

Coordenadora Pedagógica e Professora de Língua Inglesa - SEDUC/MT

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