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Quarta-feira, 08 de Abril de 2020, 07h:00

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Somos livres em nossa mente?

Se o seu EU não for treinado para refletir sobre seus erros, a punição será em hipótese alguma pedagógica.


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Beatriz G. Rufato

Somos livres para pensar? Será que pensamos o que queremos e quando queremos? Não responda rápido, espere. Pense no pensamento, pensa no que você pensa e como você pensa. Alguém pode falar: “Sou livre em minha mente, meus pensamentos se submetem a minha vontade”. Tem certeza?

 

Jean-Paul Sartre filósofo francês defendeu uma das principais teses da filosofia: o ser humano está condenado a ser livre. Sartre estava correto ou foi ingenuamente romântico ao defender essa tese? Somos livres dentro de nós mesmos? Se olharmos para o comportamento externo. Com certeza Sartre estava correto. Um presidiário pode ter seu corpo confinado atrás das grades, mas sua mente é livre para pensar.

Se o seu EU não for treinado para refletir sobre seus erros, a punição será em hipótese alguma pedagógica. Muito pelo contrário, os fenômenos que constroem cadeias de pensamentos farão uma leitura multifocal da memória ao longo dos dias, meses e anos, construindo imagens mentais sobre fuga, tudo para escapar de um cárcere mais grave que o cárcere físico: o cárcere da angústia. Quem construiu as prisões ao longo da história não estudou o processo de construção de pensamentos, não entendeu que a mente jamais poderá ser aprisionada.

Por que os ditadores, por mais brutais que sejam, por mais que controlem seu povo com mão de ferro, caem? Porque ninguém pode controlar a movimentação do EU e seus anseios pela liberdade. Um bebê terá vontade de sair dos braços da mãe para explorar o ambiente. Um adolescente se arriscará a fazer novos amigos, ainda que seja tímido. Uma pessoa marcada pela fobia desviará do objeto fóbico: irá ao encontro da sua liberdade. Por esse modo, Sartre estava corretíssimo: o ser humano está mesmo condenado a ser livre.

A sua tese alicerça, inclusive, os direitos e deveres civis dos cidadãos nas sociedades democráticas. Nelas, temos a liberdade de expressar nossos pensamentos, de ir e vi. Mas por um lado, ansiamos desesperadamente ser livre e por outro, observamos atentamente o processo de construção de pensamentos e as sofisticadas armadilhas que ele encerra, veremos que a tese de Sartre é ingênua e romântica. Infelizmente, não somos livres como gostaríamos de ser no âmago do intelecto. Aliás, os piores cárceres, as piores masmorras, as mais apertadas algemas podem estar dentro de nós mesmos.

Nós construímos pensamentos a partir do corpo de informações arquivados em nossa memória. Todas as ideias, a criatividade e a imaginação nascem do casamento entre um estímulo e a leitura da memória, que opera em milésimos de segundos.

O EU não tem consciência dessa leitura e organização de dados em alta velocidade que ocorre nos bastidores da mente, somente do produto final encenado no palco, ou seja, dos pensamentos já elaborados.

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